Licínia Machado
Vinte anos a eternizar a alma selvagem de África
Há mais de vinte anos que Licínia Machado fotografa a vida selvagem africana. Ao longo desse percurso, atravessou savanas, desertos, florestas e deltas, regressando muitas vezes aos mesmos lugares e aprendendo que, na natureza, nenhuma experiência se repete exatamente da mesma forma.
Fotografou em cerca de dez países africanos e acompanhou algumas das espécies mais emblemáticas do continente, elefantes, leões, leopardos, rinocerontes, búfalos, girafas, zebras e hipopótamos, entre muitas outras, sempre no seu habitat natural.
Embora a fotografia não seja a sua profissão principal, tornou-se, ao longo de duas décadas, uma parte importante da sua vida. A experiência acumulada no terreno permite-lhe conhecer melhor os comportamentos dos animais, antecipar determinadas situações e, sobretudo, saber esperar.
E esperar é uma parte essencial da fotografia de vida selvagem.
Na natureza não existem ensaios nem a possibilidade de repetir uma cena. O olhar de um leopardo, uma interação entre uma mãe e a cria, uma manada de elefantes levantando poeira ou a corrida de uma chita podem durar apenas alguns segundos. Fotografá-los exige atenção, preparação e também uma boa dose de sorte.
É precisamente essa imprevisibilidade que continua a levar Licínia Machado de volta a África.
A sua fotografia procura conciliar o comportamento animal com a paisagem e a luz natural. Nas suas imagens surgem frequentemente os tons do amanhecer e do final do dia, mas também momentos menos espetaculares e mais intimistas, nos quais o comportamento dos animais assume o papel principal.
Uma das preocupações constantes do seu trabalho é fotografar os animais sem interferir com aquilo que está a acontecer. Privilegia comportamentos naturais e uma abordagem documental, procurando que a imagem permaneça fiel ao momento observado.
Ao longo dos anos percorreu milhares de quilómetros em parques nacionais e reservas naturais, regressando sucessivamente a alguns deles. Essa repetição está longe de significar rotina. Pelo contrário, permite conhecer melhor os lugares e perceber como mudam com as estações, a luz, a chuva e os próprios animais.
Como tem referido em entrevistas, é possível fotografar muitas vezes o mesmo animal e nunca obter exatamente a mesma fotografia. A natureza está em permanente transformação e é essa circunstância que continua a tornar cada saída para o terreno diferente da anterior.
Existe também no seu trabalho uma preocupação com a conservação. Muitas das espécies que fotografa enfrentam ameaças relacionadas com a perda de habitat, os conflitos entre populações humanas e animais selvagens e a caça furtiva.
Deste percurso nasceram os livros Paixão por África e Os Grandes Felinos de África, que reúnem imagens realizadas ao longo das suas viagens pelo continente. Paralelamente, Licínia Machado tem colaborado com publicações ligadas à fotografia e à natureza, partilhando imagens, experiências e conhecimentos adquiridos no terreno.
Mais de vinte anos depois das primeiras viagens, África continua a ocupar um lugar central no seu trabalho fotográfico.
Não porque seja sempre necessário procurar novos destinos ou situações extraordinárias, mas porque mesmo os lugares conhecidos continuam a oferecer histórias diferentes. Cada estação altera a paisagem, cada animal tem o seu comportamento e cada encontro depende de circunstâncias impossíveis de controlar.
Talvez seja precisamente essa combinação entre experiência e imprevisibilidade que explique uma relação com África que continua longe de estar concluída.
Só este ano, Licínia Machado já realizou três viagens ao continente africano e prevê regressar mais duas vezes até dezembro.
AS FERRAMENTAS DE TRABALHO
Na fotografia de vida selvagem, o equipamento tem naturalmente um papel importante. Corpos fotográficos, teleobjetivas, zooms, suportes e sistemas de armazenamento têm de responder em condições que podem envolver poeira, calor, chuva e muitas horas de utilização.
Mas o equipamento é apenas uma parte do processo. Conhecer o comportamento dos animais, perceber a luz, escolher uma posição e ter paciência para esperar continuam a ser fatores determinantes para conseguir uma boa imagem.
Também os veículos todo-o-terreno fazem parte da rotina de quem fotografa em muitas regiões africanas. As condições das picadas variam consideravelmente consoante o país, a região e a estação do ano, podendo transformar percursos aparentemente simples em situações bastante mais exigentes.
Licínia Machado conhece essa realidade por experiência própria. Numa das suas viagens ficou várias horas imobilizada num lameiro, acabando por conseguir sair apenas graças à ajuda de outro veículo que apareceu no local.
Experiências como esta também fazem parte de duas décadas de fotografia no terreno e ajudam a explicar algumas das regras que hoje considera básicas: escolher um veículo adequado, conhecer as condições das picadas e evitar aventurar-se sozinha em zonas mais remotas.
Na fotografia de vida selvagem, a imagem final pode resultar de uma fração de segundo. Tudo o que acontece antes desse instante, preparação, deslocação, conhecimento, espera e experiência, é aquilo que torna possível o clique.
Julho de 2026
Carlos Ribeiro